DOIS MUNDOS EM RESIDÊNCIA

Um Encontro em Brelingen: A Residência Internacional de Artistas

Pela terceira vez, em julho de 2025, a pequena e culturalmente vibrante vila de Brelingen, na Alemanha, com seus 2.500 habitantes, abriu as portas do seu ativo centro cultural para a International Artists Residency. O programa acolheu oito artistas por pouco mais de duas semanas, reunindo criadores da Alemanha, Dinamarca, Canadá, Irlanda, Japão e do Brasil.

O cerne desta residência é a troca cultural profunda. Os benefícios para os artistas são imersivos: eles vivenciam em primeira mão tradições locais, histórias e o cotidiano, fomentando um entendimento cultural autêntico que frequentemente inspira novos temas e técnicas em seu trabalho. A colaboração com colegas internacionais introduz perspectivas diversas, estimula a criatividade e expande as habilidades técnicas. Um momento crucial dessa troca são as tardes de portas abertas dos ateliês durante a segunda semana, quando o público é convidado a visitar os espaços de trabalho dos artistas. Essas sessões geram um diálogo vibrante entre os artistas e os locais, oferecendo uma visão única e uma melhor compreensão do processo criativo. Por sua vez, a interação com os moradores de Brelingen cria um diálogo mútuo, onde a comunidade tem acesso a práticas artísticas globais, desconstruindo preconceitos e promovendo empatia—uma experiência enriquecedora para todos.

Renato Palmuti & Santiago Segundo: Cartografias do Encontro
Neste ambiente fértil, tivemos a honra de receber os artistas paulistanos Renato Palmuti e Santiago Segundo.

Renato Palmuti cativou os locais com suas aquarelas plein air de cenas pitorescas da vila e suas paisagens. Seu fascínio pelas sombras ofereceu aos espectadores uma nova impressão de cenários até então familiares. Esses trabalhos, no entanto, foram apenas o aquecimento para suas obras de maior escala. Realizadas em grandes telas, as pinturas que Renato produziu em Brelingen remetem à mestria dos velhos mestres. Na série que desenvolveu, o artista combina figuras de celebridades modernas e outros heróis com mitos antigos, criando uma narrativa contemporânea e pessoal. Os visitantes ficaram impressionados com o volume e a qualidade do trabalho que Renato produziu em seu curto período na residência.

Santiago Segundo encontrou no ambiente alemão um terreno propício para sua investigação filosófica. Seu trabalho incorpora textos literários e filosóficos em suas pinturas, explorando os limites da experiência humana. Como explicou à imprensa local enquanto pintava um retrato de Friedrich Nietzsche com uma cabeça de cavalo, Santiago aludia à história que marca o início do colapso mental do filósofo: em Turim, Nietzsche teria abraçado um cavalo que fora maltratado por seu condutor. O público culturalmente perspicaz de Brelingen pôde relacionar-se imediatamente com esta narrativa poderosa. A fusão entre texto, imagem e referência histórica demonstrou que Santiago estava definitivamente em casa na terra dos poetas e pensadores.

Esta exposição em São Paulo é o ápice desse período intenso e frutífero—uma tradução direta de um encontro alemão na linguagem visual única de dois artistas brasileiros, agora apresentada para que seu público de origem possa experienciá-la.

Audrey Reilly, Alemanha, Outubro/2025

Renato Palmuti utiliza a pintura como meio de expressão para investigar a consciência humana, seu comportamento e sua forma. Trabalha com materiais que empregam a água como elemento de fluidez, equilibrando a ordem técnica com uma dose de caos trazida por esse componente líquido e emocional. Com frequência, cria ou adapta seus próprios pincéis, tintas e suportes, e busca suas temáticas nas tradições esotéricas e em sua relação com o mundo contemporâneo.

Santiago Segundo parte de um intento trágico para afirmar a vida através da pintura e da matéria. Sua obra, atravessada por Heráclito, Nietzsche e pelas cosmologias do fogo, investiga a impermanência como fundamento estético e existencial. Trabalha com reações químicas e processos erosivos que tensionam o limite entre gesto e acidente, onde a intuição opera como força geradora e caminho de superação do niilismo passivo. Em sua prática, a potência ígnea manifesta-se como princípio cósmico de imanência e transformação — uma busca pela passagem da negação à afirmação.